segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Duplo Amor - James Gray (19 Novembro, 21h30m, AMAC)


Um belíssimo drama honesto e profundo, e a suposta despedida de Joaquin Phoenix do Cinema.

Dos quatro filmes de James Gray, autor muito adorado na Europa e muito ignorado lá por fora, vi apenas dois: Nós Controlamos a Noite, saído no ano passado, e este. Bastaram esses dois para passar a ter o autor como um nome a ter em conta, pois ambos os filmes demonstram um talento do realizador como um verdadeiro contador de histórias, fazendo filmes que vivem à base de um tom bem definido e perfeito para a história em si, história essa bem escrita e bem interpretada por um elenco que parece estar perfeitamente à vontade na pele das suas personagens. O Cinema de Gray é, acima de tudo, um Cinema de personagens e, de certa forma, um Cinema de veia clássica. E graças a Deus para isso.
Passamos agora de uma história de máfia e forças policiais, como a que tínhamos em Nós Controlamos a Noite, para uma história de triângulos amorosos e uma personagem perturbada. O que se mantém? A vertente de drama familiar (temos aqui um excelente Moni Moshonov, que também entrava no anterior filme do realizador, como pai do protagonista, e, acima de tudo, uma espectacular Isabella Rossellini como mãe), a câmara controlada e trabalhando em prol das personagens, um elenco perfeito, uma história que não cai no cliché, e um tom bem definido em todos os aspectos desde a fotografia à banda-sonora.
Pela terceira vez consecutiva, Joaquin Phoenix volta a trabalhar com James Gray. E nota-se, de facto, que o realizador consegue fazer vir ao de cima o já inquestionável talento do actor, criando uma personagem, Leonard, que se vê perfeitamente ter vindo directamente da mente do realizador para o corpo (e também mente) de Phoenix, sendo aqui o protagonista um fascinante e perturbado jovem com o qual é impossível não simpatizar que, após ter sido abandonado pela noiva, volta para casa dos pais, conhecendo quase em simultâneo duas belas raparigas: Sandra (Vinessa Shaw, perfeita numa personagem carinhosa que transpira bondade) e Michelle (Gwyneth Paltrow, também perfeita numa personagem perturbada e complicada) . Perante estas duas raparigas, Leonard vê-se forçado a escolher entre a segura e estável Sandra, ou a complicada e confusa Michelle. Esta é, pois, acima de tudo uma história sobre a obsessão pelo amor, sobre o quanto temos a visão toldada quando estamos apaixonados, e uma história sobre a forma como cada um tenta ser feliz, lidando o melhor possível com os seus problemas.
Leonard tentou o suicídio e esteve internado após ter sido abandonado pela sua noiva, e a sua insanidade interior paira como uma sombra por todo o filme, sem nunca ser mostrada de forma explícita ao espectador até certo ponto, quando o filme atinge na segunda metade uma magnífica intensidade dramática, onde se tornam visíveis todos os íntimos desejos da personagem de Phoenix, onde se vê de forma tão clara a sua fragilidade. A primeira metade do filme é sem dúvida dotada, mas é na segunda metade, quando o desenvolvimento das personagens atinge o seu expoente máximo após uma rápida reviravolta, que o filme revela todo o seu propósito, e que a obra cresce em intensidade e qualidade, mostrando Gray ao espectador o belíssimo filme que se encontra a passar na tela. A sombra da loucura e da obsessão está presente de forma constante, mas é quando todo esse subtil suspense rebenta, quando ocorre essa pequena (mas brilhante) reviravolta que mostra tudo como de facto é, que o filme se torna na bela obra que é.
Como contador de histórias, Gray é aqui exímio e ir lentamente construindo uma determinada premissa, uma determinada personagem, para depois a revelar de forma perfeita ao espectador. Não há no filme uma única cena a mais nem uma única cena a menos. Em termos de ritmo e em termos narrativos, o filme é impecável.
O filme é forte em todos os aspectos, e é de notar as belas interpretações de todo o elenco. Phoenix está óptimo, como seria de esperar, e Gwyneth Paltrow impressiona no seu papel por vezes intenso e ambíguo… Vinessa Shaw está perfeita no seu papel, criando uma personagem com a qual é impossível ao espectador não simpatizar, e Isabella Rossellini está magnífica, revelando em olhares e pequenos momentos a mãe afectuosa e preocupada que é, preocupando-se, acima de tudo, com a felicidade do filho (algo raro no actual cinema). A musa está aqui perfeita, num papel frágil e por vezes até comovente.
Duplo Amor não é um Romance por inteiro. Mas também não é um Drama por inteiro. Tem uma notável densidade dramática, mas tem também toques de um melodrama clássico. É, pois, um filme muito próprio. É, acima de tudo, a história de um homem que tenta obter redenção para si mesmo e que tenta, acima de tudo, amar e ser amado. Infelizmente, nem sempre se pode ter ambas as coisas. E por vezes há que escolher entre uma e outra. E é, acima de tudo, dessa escolha que fala esta obra. E fá-lo de forma honesta, longe do cliché, longe da banalidade. Duplo Amor é, verdadeiramente, uma pequena pérola. Não é perfeito e não é nenhuma Obra-Prima. Mas é uma obra que comove, toca, e que o faz com uma honestidade rara que, por si só, faz com que valha a pena o bilhete de cinema.
texto da autoria de Gonçalo Trindade

Sem comentários: