terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Abraços Desfeitos - Pedro Almodóvar (5 de Novembro, 21h30, AMAC)

Ficha Técnica

Título Original: Los Abrazos Rotos
Realizador: Pedro Almodóvar
Ano: 2009
Países: Espanha
Duração: 127 min.
Classificação: M/12
Sites: IDMB | PTGate | Oficial

Crítica

A carreira de Almodóvar tornou-se um problema para o próprio. Todos citam dois ou três nomes como os seus grandes títulos, fala-se de algumas obras chave, mas é o somatório da sua carreira que construiu o monstro que é, agora, cada um dos seus filmes. Um novo filme de Scorsese não tem de ser especialmente inovador, basta-lhe uma certa pinta e a lembrança do antigamente. A um novo Woody Allen, para agradar à quase generalidade dos críticos, pede-se-lhe apenas que torneie a sua ansiedade num qualquer malabarismo bem pensado - uma bola de ténis numa rede, quiçá. A Almodóvar, exige-se tudo. A superação emocional a cada filme. Exige-se-lhe a originalidade da estética, a densidade emocional que ele confere às suas personagens e ao objecto final, e uma narrativa que nos prenda. Mas, às vezes, Almodóvar pode querer apenas fazer um filme.

O pacote de Suporte Básico de Almodóvar, chamemos-lhe assim, está lá todo. O poder das mulheres no (seu) cinema, Penélope Cruz filmada como só ele sabe, a homenagem ao cinema, a homenagem à cor, a metáfora e a narrativa à procura do passado. Mas, conceda-se a mão à palmatória, já o vimos mais eufórico. Já o vimos com uma mensagem. Noutros filmes - Má Educação, Tudo Sobre a Minha Mãe - pressentia-se a urgência nalgo para dizer. Noutros ainda, especialmente os primeiros, pressentia-se a necessidade de afirmação de um cinema de autor muito próprio, marcado por regras, por diálogos, por cores, por dinâmicas e por personagens-tipo muito próprias. Não só é normal que isto nem sempre surja, como é normal que a Almodóvar isto nem sempre apeteça. Daí que a toada crítica a abrir o caminho a Abraços Desfeitos como um filme menor - quem sabe a antever um percurso alleniano à coisa - seja claramente exagerada. Às vezes um filme, por mais belo, é apenas um filme.

Em Abraços Desfeitos, Almodóvar volta a algumas das suas mais antigas obessões. Duas são especialmente bem conseguidas - mesmo que o tenham sido ainda melhor noutros filmes seus. O passado como influência profunda do presente, ou a forma como o presente se percebe todo no passado, é recorrente na sua obra. A cada filme que passa, há uma obsessão contínua de começar no presente algo que se configura como incompleto e que só o passado pode explicar. Almodóvar podia fazer o filme no ontem ou centrar o filme no hoje. Mas é a consequência do primeiro sobre o segundo, mais do que a confrontação ou a necessidade narrativa, que verdadeiramente interessam. Outra antiga, e constante obsessão de Almodóvar, é o cinema. Aqui revisita-se também a si mesmo. Há mais Almodóvar naquela noção quase pirandelliana de filme dentro do filme do que no próprio filme. O ritmo do filme de Mateo é o de Almodóvar. Que o filme acabe com a reconstituição de um filme assim é merecido e sintomático.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

O Gabinete do Dr. Caligari - Robert Wiene (29 Outubro, 21h30m, AMAC)


Voltámos a convidar o Jorge Moniz para criar grande música para um grande filme.
Depois do sucesso do ano passado com a exibição musicada de "Nosferatu", de F. W. Murnau, a escolha recaiu, desta feita, sobre o incontornável "Gabinete do Dr. Caligari" de Robert Wiene, o qual, juntamente com aquele, constitui o corpo central do designado "expressionismo alemão".
Como em 2008, o Jorge Moniz convidou para seus cumplices neste projecto o Valter Rolo e o José Canha.
Nós demos-lhes carta branca!
Vamos a mais uma grande experiência!

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O pendor para contrastes violentos, bem como a nostalgia do claro-escuro e das sombras, da noite indistinta, da névoa sinistra, inata aos alemães, encontraram na arte cinematográfica um modo de expressão ideal. As visões criadas por um estado de alma sombrio e atormentado podem ser transpostas com rara fidelidade para o cinema, que lhes fornece um suporte a um só tempo concreto e irreal.
Nas principais obras do cinema expressionista, os devaneios românticos de Hoffmann, Chamisso ou Tieck, combinadas à abstração radical da realidade "sensível" antes mencionada por Edschmid e Worringer, encontraram talvez sua tradução mais perfeita, mais acabada, e, sem dúvida, mais assombrosa. Para a alma torturada da Alemanha de então, tais filmes, repletos de evocações fúnebres, de horrores, de uma atmosfera de pesadelo, pareciam o reflexo de sua imagem desfigurada e agiam como uma espécie de redenção espiritual.

O Gabinete do Dr. Caligari, dirigido por Robert Wiene, é uma representação brilhante deste painel de sentimentos contraditórios e terrificantes que envolveram a Alemanha após o término da I Grande Guerra.
As perturbadoras experiências do roteirista Carl Mayer com psiquiatras durante a Guerra, e o testemunho real de Hans Janowitz, o outro roteirista, a respeito de um assassinato não resolvido de uma moça numa Feira de Variedades, foram o material básico que norteou a criação do roteiro do filme. A dupla de roteiristas pretendia, de início, fazer uma crítica mais ou menos realista do absurdo de qualquer autoridade social. O produtor Erich Pommer, que aceitou as idéias de Mayer e Janowitz sobre a execução dos cenários em tela pintada, medida que barateava os custos do filme, não foi tão receptivo quanto ao roteiro original, de conotações políticas perigosas. Foram acrescentados à história um prólogo e um epílogo, que, sob um certo ponto de vista, reduziam as denúncias de Mayer e Janowitz às elucubrações obscuras de uma mente doente.
Alguns relatos dão conta de que os roteiristas ficaram extremamente insatisfeitos com as mudanças, interpretação confirmada por Siegfried Kracauer, um renomado historiador do cinema alemão, em seu livro De Caligari a Hitler. Entretanto, é possível dizer que as alterações acabaram, por vias transversas, contribuindo decisivamente para a fantasmagoria expressionista que emana da fita. O que seria o olhar "naturalista" de um homem sobre o problema da autoridade, transformou-se nas visões subjetivas e abstratas de um louco, que desvela o Real através da essência absoluta escondida pelas "névoas" da visão objetiva. O que interessa ao expressionista não é a manifestação "realista" particular de um evento, mas o caráter eterno deste evento, que somente a abstração do sensível pode descobrir. Os aparentes delírios de um "louco" provavelmente acabaram por revelar o absurdo da autoridade de uma maneira muito mais incisiva do que por intermédio de uma acusação, digamos, "ideológica". O trabalho do diretor de produção Rudolf Meinert, do cenógrafo Herman Warm, e dos pintores contratados por ele, Walter Röhrig e Walter Reimann, consolidou definitivamente a concepção radicalmente expressionista que conduz o filme.
O enredo de O Gabinete do Dr. Caligari é, resumidamente, o seguinte: o filme abre com dois homens muito pálidos, um moço e um mais velho, sentados no banco de um parque. Eles trocam entre si relatos insólitos. O mais jovem começa a contar uma história fantástica ocorrida na pequena vila medieval de Holstenwall. Somos transportados então para um pequeno e bizarro vilarejo, onde acompanhamos os passos vacilantes de um homem estranho, com uma capa negra e uma cartola. É o Doutor Caligari (Werner Krauss). Ele se encaminha para a prefeitura, onde consegue autorização para realizar seu espetáculo na feira de variedades da cidade. O show na apresentação das habilidades psíquicas de Cesare (Conrad Veidt), um sonâmbulo de corpo esguio, vestido com uma malha negra, e que vive em estado de animação suspensa. Na mesma noite, um funcionário público de Holstenwall é esfaqueado até a morte em sua cama.
No dia seguinte, dois jovens amigos, Francis (Friedrich Feher) e Alan (Hans Heinz von Twardowski), se dirigem para a feira à procura de diversão. Atraídos pela ruidosa propaganda de Caligari, acabam por entrar em sua tenda. Um público compacto observa o palco, que exibe uma espécie de caixão que abriga Cesare. Caligari proclama que o sonâmbulo é capaz de prever o futuro, pedindo que voluntários façam perguntas. Imediatamente, Alan se levanta e pergunta: "até quando vou viver?" Cesare, sem hesitação, responde: "até a madrugada".
Consternados, os amigos se retiram e encontram a bela Jane (Lil Dagover), pela qual ambos estão apaixonados, e ficam um pouco mais aliviados. Na hora prevista, todavia, a profecia se cumpre: Cesare invade a casa de Alan e o mata a facadas. Pela manhã, Francis descobre o crime e, indignado, vai até a delegacia da cidade acompanhado pelo pai de Jane (Rudolf Lettinger). A polícia não concede muito crédito às suspeitas do jovem a respeito de Caligari e Cesare, mas decide investigar o caso. Nesse meio tempo, o assassino da noite anterior (Rudolf Klein-Rogge, consagrado posteriormente por suas sucessivas encarnações como Dr. Mabuse) é capturado. Para a polícia, os dois crimes estão resolvidos: o homem detido é o autor de ambos. Entretanto, Klein-Rogge apenas admite o primeiro crime.
Indo a procura de Francis e de seu pai, Jane encontra Caligari, que a convida a entrar em sua tenda. Aterrada com o olhar lancinante de Cesare, ela foge em uma carreira desabalada. Algumas cenas mais tarde, o zumbi vai até a casa de Jane e se dirige para sua cama portando uma longa adaga. Cesare, no entanto, extasiado pela beleza da moça, hesita e acaba por desistir de seu intento. Nesse momento, ela acorda e grita de pavor. Cesare agarra Jane e a carrega através dos telhados recortados e vielas tortuosas da vila. Perseguido pelos habitantes de Holstenwall, o sonâmbulo larga sua presa, e, pouco depois, exausto, cai em um poço e morre.
Caligari foge da cidade, e Francis sai em seu encalço. A perseguição o conduz a um asilo de doentes mentais, onde perde a trilha. Ele pergunta aos funcionários do hospital sobre a existência de algum paciente chamado Caligari, que é, no entanto, referido como o diretor do asilo. Francis entra no escritório do médico e descobre que realmente se trata de Caligari. O jovem convence outros médicos de que sua história é verdadeira. À noite, o grupo resolve então investigar os papéis de Caligari e descobre um diário com suas anotações, onde o médico detalha o seu plano maligno.
Caligari estava obcecado com o trabalho de um místico italiano do século XVIII com o mesmo nome, com o objetivo de provar que a mente de um sonâmbulo poderia ser controlada por outros. Quando um paciente com essa condição é trazido para o asilo, o médico decide tornar-se Caligari e completar sua missão. A investigação de Francis e de seus aliados é interrompida por um morador da vila, que lhes traz a notícia de que o corpo de Cesare foi encontrado. Na manhã seguinte, Francis e o grupo de médicos apresenta o corpo do sonâmbulo à Caligari. Enlouquecido de dor, Caligari se precipita sobre o corpo de seu discípulo, e, furioso, ataca o grupo. Os enfermeiros conseguem prende-lo em uma camisa-de-força, e Caligari é levado para uma cela.
Somos conduzidos, então, novamente para a cena de abertura, enquanto Francis termina de contar sua história para o velho. Torna-se patente que o banco onde ambos estão sentados está localizado no pátio do asilo de loucos. Jane está sentada olhando fixamente para o céu, e Cesare pode ser visto caminhando entre outros internos, segurando gentilmente uma flor em sua mão. Das arcadas do prédio sai então Caligari, diretor do asilo. Quando Francis o contempla, se levanta sobressaltado e tenta atacar o médico gritando: "ele é Caligari!!". Rapidamente, Francis e dominado pelos enfermeiros e posto numa camisa-de-força. Caligari, examinando o paciente, afirma: "finalmente eu entendi a natureza desta insanidade. Ele pensa que sou o antigo místico Caligari. Agora vejo como poderei traze-lo de volta para a sanidade", com o rosto se contorcendo num esgar sinistro, num final inquietante, e sobremaneira ambíguo.
A seqüência final do filme, que, de acordo com o ponto de vista de Kracauer e outros estudiosos, reduziria a trama aos delírios absurdos de um louco, talvez não tenha sido integralmente compreendida. Caligari não deixa de ser um tirano enlouquecido pelo poder apenas porque é visto como tal por um insano. A obsessão "raskolnikoviana" de cometer o crime perfeito, que anima Caligari, é desmascarada pela mente que vive na irrealidade. A tirania de Caligari se reafirma através das visões subjetivas de Francis, que, rejeitando o discurso da normalidade naturalista do encadeamento lógico, revela o absoluto cruel e desumano do médico. O desespero metafísico do expressionista reside justamente no fato de que seu discurso não pode mais ser articulado racionalmente e, por causa disso, é apenas parcialmente decodificável. Contudo, através das névoas do vago, do indistinto, da abstração irreal da realidade, Francis atinge o âmago de Caligari. Sua narrativa "fictícia" pode ser entendida como uma profunda intuição profética do destino, característica marcante da visão de mundo expressionista.
A criação desta atmosfera de pesadelo jamais teria sido possível, contudo, sem o suporte decisivo de uma bem resolvida concepção estética expressionista. Em Caligari, a cenografia expressionista conseguiu, com rara felicidade, evocar a fisionomia latente de uma pequena aldeia medieval, com ruelas tortuosas e escuras, passagens estreitas espremidas entre casas arruinadas. As linhas e planos tortuosos, oblíquos e abruptos do cenário provocam no público um efeito muito diverso do que o que seria logrado por uma composição visual harmônica. Os planos são inclinados, janelas são mais largas na parte de cima do que na base, portas deslocadas se abrem alucinadamente. A soma destas imagens expressionistas representa um mundo "interior", uma construção mental que nega a realidade objetiva. A visão de perspectivas falseadas e imprevisíveis, de formas distorcidas, e a consciente intenção de evitar linhas verticais e horizontais, despertam no espectador os sentimentos de insegurança, inquietação e desconforto. Os figurinos usados pelos atores, os móveis e os demais objetos cênicos se incorporam fielmente a esta concepção. As personagens, por conseguinte, movem-se num universo que lhes é sempre incômodo e traiçoeiro, à exceção de Caligari e Cesare, mentores deste mundo. Diante da exaltação patética que paira sobre o cenário sintético de Caligari, o estilhaçamento das certezas psíquicas parece inevitável. As casas apenas esboçadas no viés de uma ruela parecem de fato sacudidas por uma extraordinária vida interior.
Eisner afirma que esta sensação não advém apenas do insólito dom de animar os objetos que possuem os alemães. Na sintaxe do idioma alemão, os objetos têm vida ativa, empregando-se, para falar deles, verbos e adjetivos que servem para os seres vivos. Muito antes do expressionismo, a animação do inorgânico já havia sido levada a extremos. Em 1879, o escritor alemão Friedrich Vischer, nos revela Eisner, em seu romance Auch Einer fala com muita seriedade da "perfídia do objeto", que espreita com alegria maligna nossos esforços para domina-lo. Na radicalização deste processo levada a cabo pelo expressionismo, a misteriosa agitação do inorgânico se agiganta e passa a misturar pessoas e objetos. No romance O Golem (1912), referido também por Eisner, obra de Gustav Meyrink, as casas do gueto de Praga parecem adquirir uma vida cruel e hostil ao anoitecer, "quando a névoa das noites de outono estagna nas ruas e vela seu imperceptível esgar". Ao cair do sol, as casas, que durante o dia haviam cedido energia vital a seus débeis habitantes, reclamam com juros a vida dada a seus moradores irreais: "as paredes retesam-se como faces dissimuladas, cheias de indizível maldade; as portas tornam-se bocas escancaradas e gargantas capazes de lançar apelos estridentes".
As imagens de Caligari são como reflexos em espelhos deformantes. Todas as expectativas são invertidas. A fotografia, assumida por Willy Rameister, de um claro/escuro de contrastes violentos, acentua ainda mais esse processo de inversão. O abstração solipsista da mente expressionista é retratada por uma cenografia de perspectivas inusitadas e inviesadas, fortemente anti-realistas, numa intenção estética onírica e sobrenatural. É instrutivo o cotejo entre clássicos do cinema de horror norte-americano como Frankenstein, de James Whale, ou o primeiro Dracula, de Tod Browning, ambos de 1931, com as obras-primas do expressionismo alemão. Por que, como disse um crítico de cinema americano, o Dracula de Browning se assemelha a um desenho de Walt Disney se comparado a um filme como o Caligari ou o Nosferatu (1922) de Friedrich Wilhelm Murnau? Por que, como disse o crítico húngaro Bela Balázs a respeito filme de Murnau, sentimos a "emanação de sopros glaciais do além"? A resposta reside no conservadorismo estético do primeiro exemplo e na ousadia formal dos dois filmes alemães. A estética do cinema de horror americano dos anos 30, convencional, realista e acadêmica, jamais conseguiu provocar a mesma sorte de sensações aterrorizantes que a espectral estética expressionista. Retornando a termos anteriormente desenvolvidos: O Dracula de Browning "vê" e o Caligari tem "visões". A tendência do expressionismo em ver a realidade como reflexos deformados no espelho do inconsciente, já pode ser, inclusive, encontrada em certos autores do romantismo alemão. Conforme exemplifica Eisner, Tieck, em seu famoso romance-de-formação William Lowell, descreve a impressão de um universo flutuante e impreciso: "as ruas me aparecem então como fileiras de casas disformes, com moradores loucos".
A interpretação dos atores é também determinada pela estilização expressionista do cenário, fato notável, sobretudo, nas magníficas atuações de Krauss como Caligari e de Veidt como Cesare, que comportam-se como se pertencessem a esse mundo estranho. Suas ações parecem ser comandadas por forças ocultas que controlam seu destino. Seres da sombra, Cesare e Caligari vivem num universo paralelo, onde os dados objetivos da realidade não fazem mais sentido. As atitudes intermediárias, os movimentos naturais são evitados, substituídos por gestos escarpados, abruptos, que permanecem bruscos como os ângulos quebrados do cenário. Veidt se move lentamente, como um autômato, deslizando pelas paredes, enquanto Krauss está sempre curvado, em ângulo agudo, e caminha em passos curtos e precisos, acentuados pelo uso de uma bengala. As expressões faciais habituais são trocadas por um maneirismo cheio de significados místicos. As personagens de Cesare e Caligari são perfeitamente adequadas à concepção expressionista: o sonâmbulo, destituído de toda individualidade, isolado da vida cotidiana, criatura abstrata do inconsciente, mata sem motivo e lógica, enquanto seu mestre, que não possui sombra de escrúpulo humano, se considera acima do bem e do mal, e, implacável, é motivado por desígnios obscuros e impenetráveis.
O cinema expressionista alemão, em sua estetização radical dos paradigmas espirituais do expressionismo, atingiu um grau máximo de abstração do universo real, de desconstrução da realidade sensorial e dos dados objetivos da consciência. Os elementos essenciais do expressionismo só conseguiram sua realização definitiva por intermédio de uma nova arte, o domínio da imagem em movimento, que deu vida a um mundo paralelo, povoado por visões subjetivas, misteriosas agitações do inorgânico e profecias inquietantes sobre uma nova era, a aurora da modernidade.

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Sujidade e Sabedoria - Madonna (22 de Outubro, 21h30, AMAC)


Ficha Técnica

Título Original: Filth and Wisdom
Realizador: Madonna
Ano: 2008
Países: Reino Unido
Duração: 81 min.
Classificação: M/16
Sites: IMDB | PTGate

Crítica

"Quando morrer, irei directamente para o céu. E vais questionar-me porquê. Tentei o suficiente? Não. Partilhei o suficiente? Nem por isso. Fui suficientemente humilde? Definitivamente, não. 'O que te faz então estar tão seguro de que irás para o céu?', perguntarás. E eu dir-te-ei: porque eu disse a verdade." Quem nos brinda com tal sainete, cigarro numa mão, garrafa de cerveja na outra, e em grande plano, é o líder carismático da banda nova-iorquina Gogol Bordello, Eugene Hütz, amigo de Madonna e, nota-se logo, mal ele abre a boca, ucraniano de gema. É uma criatura e peras. Uma daquelas que, apesar da sua queda para o grotesco, poderia jurar pela alma da mãe que é o tipo mais genuíno do mundo. A quem se dirige ele naquele diálogo, muitos dirão, de bradar aos céus, e que parece vir do além? A Deus? Ao espectador? A ambos, provavelmente. Mas pouco importa, que a coisa não se quer muito séria. Nem intelectual. Um aspecto, contudo, parece-nos certo: não é Eugene, nem a sua personagem (já falamos mais dela) que nos dirige a palavra naquela espécie de confessionário "Big Brother". Quem a nós se dirige é a autora deste filme, aquela a que outrora chamaram de material girl, Madonna .

Resolveu fazer um filme, a Maddy . Estreou em Berlim 2008 e caiu agora nas salas portuguesas, um pouco de pára-quedas, sem que ninguém estivesse à espera. Talvez não haja nem muita sujidade nem muita sabedoria aqui, mas é preciso, desde já, sublinhar uma coisa: "Filth and Wisdom" (no original) é tudo menos um filme de meias-tintas. Não deixará ninguém indiferente. E trata-se ainda, ideia que tentaremos defender, de um filme raro pelo modo como ataca o género autobiográfico no cinema contemporâneo.

Mas antes de entrar no filme, queremos fazer um desvio e falar dela, da Ciccone, que 'veio cá de baixo' e subiu a pulso, para nos ficarmos por essa parte do corpo, até à sua coroação de 'rainha da pop' à escala terrestre. Se a música lhe foi generosa como a nenhuma outra artista da sua geração, o cinema, nem por isso. Madonna, como tantas outras, tentou no cinema uma carreira paralela aos seus êxitos colossais na indústria discográfica, uma carreira que fixasse no celulóide a extraordinária bailarina que ela também é, mas nem na sua boom decade, a dos anos 80, o cinema lhe foi grato.

Muitos se lembrarão ainda de "Desesperadamente Procurando Susana" (de 1985, realizado por Susan Seidelman), nos tempos em que a cantora era casada com Sean Penn, e Lloyd Cole, cínico imparável, chamava a este último o "Mr. Madonna". Muitos se lembrarão também do simpático, mas nada mais do que isso, "Who's That Girl" (1987, de James Foley), que também foi título de um dos seus maiores êxitos, e sobretudo de "Dick Tracy" (1990), em que Madonna 'flirtou' com Warren Beatty nesse pulp movie. Depois, já anos 90 a dentro, veio o filme com ela de que mais gostamos, o único em que a cantora e actriz conseguiu ser como se queria ver - a si própria -, e que é um documentário, "Na Cama com Madonna". Veio a aventura de basebol ("Liga de Mulheres", pela mão de Penny Marshall), um delírio musical que encheu o olho ("Evita" de Alan Parker) e mais um punhado de títulos. Que não fizeram história. É que Hollywood já tinha a sua loura para os anos 90: chamava-se Sharon Stone. Madonna, com menos 10 centímetros, era demasiado mignone para a competição. De Stone, nada tinha, e todos sabemos bem o que ela recordava: era Marilyn.

Aquela que foi testemunho e, em simultâneo, epitáfio do velho star system cinematográfico, quando as stars ainda eram intocáveis. E faziam chorar. Só que Marilyn, para além do cinema, foi canonizada pela pop art de Andy Warhol. E Madonna? Pela MTV. Isto faz toda a diferença. Nos tempos de Madonna, os tempos do vídeo, já não havia stars como a que ela poderia ter sido. Chegou tarde de mais. Ou seja, tudo o que cinema lhe deu só lhe foi prejudicial.

Porém, em 1987, o mundo inteiro perguntava: "Who's that girl?" Vinte e dois anos depois, talvez "Sujidade & Sabedoria" nos dê a resposta. E foi quase em segredo, sem qualquer pressão mediática, que Madonna se atirou para esta ficção pessoal e intimista que, afinal, só fala dela, por portas travessas. Madonna não aparece no ecrã. Na Londres que escolheu para viver, procurou os bas-fonds ideais para recriar aqueles tempos açucarados de 'Like a Virgin' que a deram a conhecer ao mundo a bordo de uma gôndola pelos canais de Veneza. E voltamos a Eugene Hütz, que, de Madonna, é afinal uma espécie de alter-ego eufórico. Filme de amigos, este? Também, só podia sê-lo.

Em "Sujidade & Sabedoria", a personagem de Eugene, A.K., é um imigrante ucraniano. Quer ser vedeta internacional do cançonetismo cigano-punk. Enquanto não chega o estrelato, ganha a vida como gigolo sado-masoquista. A.K. divide o apartamento com duas raparigas, Holly (Holly Weston, uma estreante) e Juliette (Vicky McClure, que já conhecíamos dos filmes de Shane Meadows). Completa-se com elas o trio de losers à procura de um lugar ao sol: Holly quer ser bailarina clássica mas é forçada a trabalhar num bar de striptease; Juliette sonha em salvar crianças órfãs em África mas, longe das missões de caridade, não consegue mais do que um trabalho precário numa farmácia em que sensibiliza os clientes para a bondosa causa. Todos eles, A.K., Holly e Juliette querem fazer dos sonhos realidade, num filme coral que, como já se disse, é mais permeável ao grotesco do que ao burlesco.

O trash e o stress entranham-se, contudo. Misturam-se o sexo, a música (dos Gogol Bordello, de Hütz, que não é para todos os gostos...), o misticismo de pacotilha e a ambição material, num ambiente um bocado circense e ingénuo, donde Madonna retira a sua sentença moral: "Tens que sofrer bastante se queres ser alguém na vida." É a sua própria experiência que ecoa no filme a cada fotograma. E o resultado cinematográfico, se não é brilhante, é pelo menos alheio ao conformismo.

Modéstia é coisa que não rima com Madonna. Quando ela declarou, em Berlim, no ano passado, que "sempre fui inspirada pelos filmes de Godard, Visconti e Fellini..." só podemos sorrir. Mas Madonna disse mais: "...espero realizar um dia qualquer coisa que se aproxime destes génios". Ao dizer tal coisa, ela sabe que não tem um grande filme nas mãos para defender. E tanto melhor assim, pois é esta sinceridade que nos interessa. Passamos a vida inteira a ver biopics heróicos. Que haja pelo menos um, e logo travestido, a assumir o contrário - que a vida, por vezes, também é uma merda.

"Sujidade & Sabedoria" é um filme de caprichos e de estereótipos suaves. Todos eles tratados com uma afectividade e uma atenção inesperadas da parte de alguém que está hoje nos píncaros do céu e não esqueceu o inferno, como Madonna. Não pensamos só nos três heróis do filme, mas em todo aquele meio londrino sarcástico, recheado de bailarinas strip e de intelectuais literários, imigrantes indianos, judeus, ciganos e homossexuais refinados a toques de Oscar Wilde, todos eles caricaturas alinhavadas num filme de vinhetas, quase sempre desequilibradas. Aquilo parece tudo um sonho molhado, ou uma comédia non sense, como as de Richard Lester dos anos 70.

No fundo, "Sujidade & Sabedoria" é o filme definitivo sobre a persona de Madonna e, em simultâneo, o filme do seu próprio escárnio. Tudo é paradoxal, veja-se a 'sujidade' e a 'sabedoria', e onde não há a primeira, não pode haver a segunda, diz-nos Hütz, deitado na banheira, a recitar os seus nacos de prosa. Como dizia Madonna (no 'Into the Groove'), "at night I lock the doors where no one else can see", mas nem frase tão cinematográfica lhe bastou para que ela vingasse no cinema, como Marilyn. Nem a sua vida foi, felizmente para ela, vale de lágrimas que se comparasse. Madonna pode até estar segura, like a prayer, que o céu está à sua espera. Pela primeira vez, sem aparecer no ecrã, conseguiu expor o preço que pagou pelo seu êxito, esse true blue que é o testemunho do seu tempo e das estrelas desencantadas que dizem fuck, doces por fora e amargas por dentro, porque este filme não fala de outra coisa. E é isso que o torna comovente.